Gravação: O Processo – Parte I

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Você pode perguntar a qualquer músico e todos vão lhe responder o mesmo: Estúdio de gravação é uma coisa e palco de show outra completamente diferente. Têm aqueles que preferem shows e odeiam gravar e vice versa. No palco a energia do público e a adrenalina são coisas difíceis de transformar em palavras, são momentos únicos. Já as etapas de gravação em estúdio são como a criação de uma pintura, uma obra de arte. Definitivamente é algo que gostamos muito. Dessa vez, queríamos fazer um disco que fosse o melhor de todos gravados até agora, tanto em termos das músicas escolhidas, como em termos da qualidade técnica. Reservarei outro post para falar mais detalhes de cada música, mas o que podemos adiantar é que este trabalho está mais pesado, mais sério sem perder a essência do Picles. Lembra um pouco a época da Modelo T…

Na maioria das vezes os trabalhos em estúdio são extenuantes e estressantes, com discussões de arranjos, correções em gravações já feitas, timbres, BPMs, volumes e o pior de todos, o tempo! Tempo de estúdio é caro. E estúdios bons são mais caros ainda. Então você tem um tempo máximo para gravar as músicas, de modo que existe um limite para erros e correções. No nosso caso eram 16 músicas que tinham de ser “matadas” em uma sessão de 9 horas… Para quem não está muito acostumado, normalmente é gravado um instrumento por vez começando pela batera. Em algumas músicas, são sete oito instrumentos, então as coisas podem sair do controle em termos de duração. Optamos por mandar baixo e batera juntos, assim ganhávamos tempo e um pouco mais de “pegada”, já que a energia de tocar junto é maior.

Voltando um pouco, o processo todo começa bem antes de entrar no estúdio. Primeiro definimos quais serão as músicas do disco, normalmente a partir de uma lista de 30 ou 40. Desde sempre essa é uma parte com grandes discussões, já que as músicas escolhidas nunca são as mesmas para todos. Diferentemente, desta vez o consenso veio logo de cara. Foram 16 as escolhidas praticamente de comum acordo. Como para o Ronaldo compor nunca foi um problema, já conhecíamos todas as músicas que estava previamente gravadas com as linhas básicas em formato de demo e alguns poucos ensaios bastariam para entendê-las e eventualmente fazer algum ajuste ou re arranjo. De minha parte precisava escrever as linhas de batera, já que decorar não é exatamente meu forte.

Feito isso o próximo passo é ir para o estúdio. Previmos que conseguiríamos fazer o baixo e a batera em uma sessão única de 9 ou 12 horas, se nada desse errado… No longínquo ano de 1997, minha primeira gravação de uma música estreando com clique (uma espécie de marcação que fica tocando na sua orelha em quanto você grava para não perder o tempo da música), levou uma sessão inteira de 6 horas, para desespero do técnico do estúdio, da banda e claro, o meu próprio. Deveria estar traumatizado até hoje… Na época as gravações eram feitas nos velhos gravadores de rolo com 6 ou 12 canais e não havia como fazer edições como se faz hoje no Pro Tools. Um simples prato ou bumbo tocado fora de contexto no último compasso da música, fazia com que tudo tivesse que ser gravado novamente, já que nem sempre era possível emendar a levada, principalmente as de batera. Tendo isso em mente, você até pode dizer que fazer 16 músicas em 12 horas era bastante exagerado.

Estúdios Mosh, 5 de Novembro de 2011, 09:02hs da manhã…

Chegamos praticamente ao mesmo tempo. O primeiro passo era montar a batera, peças e microfones. Uma hora depois, durante a montagem descobri um rasgo na pele de resposta da caixa. Praguejei como de costume, por não ter trazido duas outras caixas que estavam disponíveis. Parecia que os problemas começavam… não fosse o Rafa, o solícito assistente do Mosh que trouxe uma caixa Tama (não vou entregar de quem era…), que apesar de alguns problemas e depois de alguns ajustes ficou com um som sensacional. Mais uma hora e o som estava acertado. Aqui cabe um parênteses… Tim Maia deve ter sido o músico que mais reclamou dos técnicos de som em todos os shows e ele tinha seus motivos. Sem tocar na questão de conhecimento técnico e musical, o cara que está gravando tem que entender o som, saber ouvir, conhecer música e principalmente conhecer a banda. Infelizmente poucas foram as vezes em que conseguimos alguém que realmente sacasse qual era nossa proposta. Assim desde o disco “Satisfação Garantida”, o Gustavo passou a ser o nosso técnico de som oficial (já que trabalhou no Mosh por anos nessa função), com apoio do Ronaldo com sua larga experiência na área e por mim, menos de técnico e mais de chato. Nós três nos entendemos no estúdio e as coisas rolam fácil.

Eram 12:40hs quando o Gustavo falou “Foi!”, e soltou a primeira base. Não sei bem como funciona com outras pessoas, mas comigo as primeiras passadas sempre são as melhores. Então tinha que sair na segunda ou na terceira vez… E assim foi até a décima sexta música.

Ouça a gravação ainda sem nenhuma mixagem de “Nunca Mais Vai Ser Tão Bom”, só com baixo e batera:

Nunca Mais Vai Ser Tão Bom



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Terminadas as cópias de backup, agora era a vez das guitarras…

 

 

 

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